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A formatura, o Hino Nacional e a vida cristã

  • 2 de fev. de 2017
  • 4 min de leitura

Há algumas semanas, fui convidado para uma cerimônia de formatura, aqueles compromissos aos quais não temos o mínimo interesse em comparecer, mas honramos em nome da amizade. Pois bem, fui. Um tanto quanto desanimado – tive uma crise de insônia na noite anterior e só estava ali por consideração a quem me convidou -, sentei-me na primeira fileira, bem em frente à mesa onde estavam os representantes da instituição na qual se formara o meu amigo.


O mestre de cerimônias deu início ao evento cumprimentando os presentes, desejando-lhes uma boa noite, manifestando alegria por ter sido escolhido para aquela ocasião e “rasgando metros e metros de ceda” para a instituição. Tudo ocorria como em qualquer outra formatura, nada fora do normal – exceto o enorme desejo que eu sentia de estar em casa, dormindo!


Instantes depois solicitaram que ficássemos de pé, pois o Hino Nacional seria entoado. Me levantei e, como a maioria dos brasileiros, estava prestes a repetir uma série de frases cujo sentido nunca foi claro para mim. Ao ouvir as primeiras notas, como amante da música que sou, tive minha atenção cativada. Meu coração batia no compasso do bumbo. Não ousei cantar. A melodia de Francisco Manuel da Silva me fez querer ouvir o que Joaquim Osório Duque Estrada tinha a dizer. Estes são os compositores da música e da letra do hino, respectivamente. Fiquei encantado com o retrato do Brasil que eles haviam musicado. O sono passou. Sem hipocrisia alguma, fui tomado por um enorme orgulho de ser brasileiro!


“Brasil, um sonho intenso, um raio vívido (...) Gigante pela própria natureza, És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza (...) Teus risonhos e lindos campos tem mais flores do que a terra mais enfeitada[1] (...) um filho teu não foge à luta e aqueles que te amam não hesitariam em morrer por ti[2] (..)Terra adorada (...) Mãe Gentil (...) Pátria Amada (...) Brasil.”


Não pude conter as lágrimas!


Logo em seguida, me vi diante de uma dualidade, uma antítese, eu diria. O ideal e o real simplesmente contrastavam na minha mente. “O que se fez dos campos e de todas as riquezas naturais? O que se fez de todas as gerações que cantaram o mesmo hino antes de adentrarem as salas de aula?”, eu questionava a mim mesmo. As respostas, porém, não eram das mais animadoras. Percebi que a Pátria não havia sido uma “Mãe” tão gentil assim na maior parte do tempo, e que gerara filhos muito mais dispostos a garantir os próprios interesses que a morrer pela genitora, o que contrariava por inteiro a belíssima letra do hino. Lembrei da desonestidade arraigada na sociedade e da corrupção, que não se manifesta só na política, mas também em atitudes muito simples, como não devolver o troco que foi dado a mais.


O orgulho dera lugar à decepção, dois sentimentos tão distintos em tão pouco tempo. Àquela altura, todos já haviam sentado, só eu estava de pé. Com as mãos sobre as costas da cadeira da frente, o corpo reclinado e um olhar vazio em direção ao nada, eu roubava a atenção do mestre de cerimônias, que não poderia deixar de observar um sujeito de pé no meio da plateia. Ao me dar conta disso, tomei assento. Mas meus pensamentos não deixaram de tentar encontrar uma solução para aquele problema. “Eureca! A letra do Hino precisa ser reescrita”, pensei. Se me permite fazer mais uma confissão, acho que nem nas crianças de peito pode-se achar tamanha inocência. Percebi que o problema não estava na composição, mas em um povo embebido de maus costumes, que torna utópica a possibilidade de a poesia da letra ser uma realidade no nosso País. O erro está na Nação, não no Hino Nacional.


Como se esta constatação – que, diga-se de passagem, é óbvia – não fosse o bastante, comecei a lembrar de todos os hinos que cantei desde a minha infância, desde as musiquinhas que as professoras de escola bíblica me ensinaram até os cânticos congregacionais que entoei no último culto. Repassei mentalmente algumas letras que falavam de uma relação íntima e perfeita com o Senhor, de ações dignas de um ser humano realmente regenerado pelo sacrifício de Cristo. Mais uma vez concluí que havia divergências entre as palavras e as ações, desta vez, as minhas. Me vieram à mente situações nas quais fiz coisas que minhas palavras reprovaram outrora. Fui remetido a cada oração que fiz por irmãos enfermos sem de fato crer que o quadro seria revertido. Orei só por orar. A situação era séria! Vivi até então uma vida farta de farsas, que passaram a maior parte do tempo veladas à minha própria percepção.


Fui tomado pelo desespero. De cabeça baixa e tampando os ouvidos, eu mexia as pernas freneticamente, como se fosse o próximo na fila da cadeira elétrica. Pior que isso, eu estava mais uma vez na fila do Juízo Divino. Quantos como eu existem por aí? Muitos! Milhões talvez! Alguns até ocupando cargos importantes, como aquele político com nome de peça de enxada, que ficou famoso por denunciar esquemas de corrupção dos quais fora participante ativo.


Sinceramente, o problema não eram os hinos nem as orações, assim como não o era o Hino nacional. O problema são os “zilhões” de cristãos que se acostumaram a enxergar o discurso e a prática como coisas distintas, distantes, antagônicas. “Maldita hora em que aceitei vir a esta formatura!”, pensei, como bom descendente de Adão, buscando a quem pudesse atribuir a culpa que era só minha. Por falar na formatura, não faço ideia do que aconteceu depois do momento de ode à Nação.


Percebi que havia falhado como filho de Deus. Este, sempre misericordioso, me fez lembrar da passagem de João 8:11 : Vá e não peques mais. Supliquei Seu perdão e pedi a sua ajuda, convicto de que seria reincidente sem ela. Que noite!


Moral da história: Pense bem antes de aceitar convites para formaturas.


Por "crônicas de um cristão comum"

[1] Paráfrase.

[2] Idem.


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